Resíduo Úmido de Cervejaria na Alimentação Animal

Resíduo Úmido de Cervejaria na Alimentação Animal

Resíduo Úmido de Cervejaria na Alimentação Animal

Tales Bernardes / Tecnologia no Campo

        Com o crescente aumento do uso de bebidas alcoólicas no Brasil, e a falta de local para destino correto dos subprodutos gerados nessa indústria, a cevada ou resíduo úmido de cervejaria se configura como uma boa fonte de alimento para os animais.

A principal matéria prima utilizada pelas indústrias de cerveja no Brasil é o malte de cevada, acrescida de misturas de outros cereais como o milho e o arroz.

O resíduo úmido de cervejaria (RCU) além de ser produzido em grande escala, o que é um fator positivo para o seu custo, também não sofre interferência da sazonalidade. Um dos fatores limitantes para o uso do resíduo úmido de cervejaria é alto teor de umidade, devendo atentar-se ao armazenamento, além disso por conter baixo teor de MS em grandes quantidades na dieta, pode inibir o  consumo animal


Você vai ver nesse post:

  • Como é produzido o resíduo úmido de cervejaria.
  • Principais benefícios da utilização do resíduo úmido de cervejaria.
  • Principais problemas da utilização do resíduo úmido de cervejaria.

Como é produzido o resíduo úmido de cervejaria.

A cerveja é obtida pela fermentação da cevada (Hordeum vulgare), que consiste na conversão em álcool dos açúcares presentes em seus grãos. A matéria-prima utilizada pelas indústrias de cerveja no Brasil é constituída por malte de cevada com a adição de mistura de cereais (principalmente o milho).

Os grãos (sementes) de cevada limpos e selecionados são transformados em malte, processo em que o grão, após ser submetido a condições favoráveis de germinação, é interrompido tão logo emita as primeiras brotações.

Após obter o malte, a cervejaria dá início ao processo de produção da cerveja propriamente dita, cuja primeira etapa consiste em obter o mosto. 

O mosto nada mais é do que uma solução de açúcares oriunda da sacarificação do amido presente no malte por ação de enzimas.

O preparo do mosto consiste em cozinhar o malte e inclui etapas de preparo (como a moagem, maceração e separação).

Após o preparo do mosto, este é resfriado e filtrado para remoção do resíduo dos grãos de malte e adjunto.

A fermentação do mosto é dividida em duas etapas:

Uma primeira etapa, denominada aeróbia, fase reprodutiva das leveduras, aumentando de quantidade de duas a seis vezes.

Uma segunda, fase anaeróbia, em que a fermentação propriamente dita ocorre, convertendo os açúcares presentes no mosto em CO2 e álcool.

O processo de fermentação dura de seis a nove dias, obtendo-se no final o levedo, já que estes se multiplicam durante o processo. Este levedo é, então, levado para tratamento e estocagem, sendo uma parte reutilizada em novas bateladas de fermentação.

O resíduo de cervejaria pode ser descrito como massa resultante da aglutinação da casca com resíduos do processo de mosturação. Pode apresentar maiores concentrações de proteína e carboidratos do que as encontradas em seus cereais de origem.


agricultura familiar

Principais Benefícios do Resíduo Úmido de Cervejaria

Entre as principais vantagens do uso do produto na alimentação dos bovinos destacam-se:

Excelente característica bromatológica e elevada digestibilidade da matéria seca.

O bagaço de cerveja é um subproduto rico em proteínas, com 24% a 26%  de PB na matéria seca. Porém, degradabilidade efetiva da proteína é baixa (50%), sendo a taxa de degradação de 7%/h.

É um subproduto também rico em fibras, com um teor de FND de 53% e FDA de 27%, embora seja uma fibra ineficaz (18%). O teor de lignina é de 4% e o teor de cinzas é de 4%.

O conteúdo energético metabolizável deste subproduto é de 2,86 Mcal / kg. Sendo a participação do extrato etéreo em torno de 8%

Santos et al. (1984) analisaram a degradação de RUC e farelo de soja no rúmen de vacas em lactação e observaram que dietas com RUC tiveram 52% de degradação aparente, enquanto o farelo de soja apresentou em torno de 70%. A proteína do resíduo que chegou ao duodeno, apresentou digestibilidade aparente de 60%.

Alta palatabilidade, elevando os níveis de ingestão diária de alimentos.

Devido à alta palatabilidade o RUC é ideal para ser fornecido em conjunto com outros alimentos menos palatáveis, devido à sua consistência pastosa, fornece “liga” entre os alimentos, facilitando a ingestão da dieta completa.

Devido a sua alta palatabilidade, alguns cuidados devem ser tomados, como uma adaptação prévia à dieta. Como o fornecimento do RUC em porções menores, e aumentando a sua quantidade. Essa precaução se deve à necessidade de adaptação do ambiente ruminal ao alimento.

É regulador das funções ruminais pelo seu poder tampão sobre o pH.

Chiou et al. (1998) avaliaram o ambiente ruminal de vacas leiteiras com dietas com substituição de 10% de farelo de soja por resíduo de cervejaria e observaram que havia uma queda acentuada de pH ruminal duas horas após a alimentação em animais que não recebiam resíduo de cervejaria na dieta se comparados aos que recebiam.

Os autores concluíram que os maiores teores de fibra e a menor quantidade de carboidratos solúveis na dieta com resíduo de cervejaria seriam responsáveis por esse efeito.

Permite elevação imediata do volume de produção.

O resíduo de cervejaria constitui-se em uma fonte proteica de origem vegetal naturalmente protegida da degradação ruminal (proteína “by-pass). Isto significa que ela é predominantemente digerida no abomaso e no intestino, ao invés do rúmen.

Outro ponto positivo, em relação à proteína do RUC, se refere à sua composição em aminoácidos.

Lisina e Metionina são consideradas os aminoácidos mais limitantes à produção de leite. Sendo a lisina apontada como o aminoácido mais limitante do RUC. Por outro lado, o resíduo é uma boa fonte de metionina, o que faz dele um bom complemento ao farelo de soja, que é pobre em metionina.

  • Promove aumento no vigor reprodutivo do rebanho.
  • Possui baixo custo relativo de mercado na composição das rações.

Grãos de cerveja úmida são um produto altamente perecível e volumoso que é caro para o transporte. Sua distribuição é, portanto, limitada a um raio de 150 a 350 km ao redor da cervejaria. A desidratação, apesar do alto custo de energia, facilita a distribuição de grãos das cervejarias além de sua área de produção.

  • Pode ser facilmente ensilado em propriedades rurais, diminuindo o risco da falta de alimento para o rebanho.

Principais Problemas do Resíduo Úmido de Cervejaria

Atrelados às possíveis vantagens, diversos fatores de risco devem ser avaliados antes da introdução de qualquer subproduto à dieta. O primeiro deles refere-se à decisão sobre quais produtos adquirir.

Falta de controle de qualidade

Falta de controle de qualidade leva a outro problema, que é o correto estabelecimento do valor nutritivo do subproduto.

Quando a variação na composição é muito grande, e isto é comum a alguns subprodutos, fica difícil o balanceamento de dietas por desconhecer-se o real valor nutritivo do alimento.

Muitas indústrias encaram os subprodutos como rejeitos industriais e, dessa forma, não têm controle sobre a qualidade desses alimentos. Por isso, os resíduos de cervejaria apresentam grande variação em sua composição nutricional, além dos efeitos do processamento.

Assim, para a utilização dos RUCs na alimentação animal, é necessário verificar a adequação nutricional através de análise bromatológica.

Essas análises apontam que aquilo que foi formulado pelo técnico responsável realmente será fornecido para os animais.

Armazenamento

Uma das limitações dos RUCs são os baixos valores de MS (20 a 30 %), que também dificulta o transporte e o armazenamento destes produtos.

Levando em conta a alta umidade, deve-se atentar para encontrar a embalagem e processo de ensilagem ideais. Para facilitar a ensilagem, o RUC pode ser misturado com produtos fibrosos secos, como cascas de aveia, soja ou forragem picada.

A ensilagem certamente aumentará o custo, mas se o produto for entregue pelo preço certo, ainda poderá ser econômico.

Toxicidade

Os grãos de cevada são um excelente meio para o crescimento de bactérias, leveduras e fungos, tornando-os inadequados para o armazenamento. E por isso Recomenda-se utiliza-los o mais rapidamente possível após o recebimento para reduzir a probabilidade de perca do produto.

O uso incorreto ou sem os devidos cuidados, bem como o armazenamento de forma inadequada, contudo, podem ser responsáveis por quadros de intoxicação por etanol, neurotoxicose por Aspergillus clavatus, acidose ruminal e botulismo.

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2019-03-10T16:23:13+00:00 0 Comments

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